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Entrevista Com Marcos Sparkles - tecladista dos Lee Bats

Entrevista Com Marcos Sparkles

 

Junho de 1985 – poucos dias antes da viagem para a Macedônia

 

Por: João Loco

 

-Essa entrevista, gravada em fita K7, foi transcrita em Setembro do mesmo ano para figurar no fanzine universitário Ecbólio, do C.A. de Letras da PUC-SP.

 

JL: Como você vê o trabalho de cinco anos e meio dos Lee Bats no âmbito da música independente, marginal e underground no Brasil?

 

MS: É isso aí...você, de certo modo, já nos respondeu o que perguntou... Somos marginal, underground...mas na expressão mais literal possível dessas palavras. Poucos são os que conhecem nosso trabalho, vivemos no olvido, com “l”, embora a música seja para os ouvidos, com “u”! – [risos]

 

JL: A que você atribui o olvidamento dos Lee Bats?

 

MS: A nós mesmos, em primeiro lugar.... primeiríssimo lugar...Eu poderia reclamar do destino, num viés mais romântico; poderia reclamar da indústria fonográfica e dos empresários de artistas, num viés crítico-social; ou ainda, poderia reclamar do público médio brasileiro que tem, ao que nos parece, preterido obras de certo grau de complexidade por outras mais medianas e rasteiras...Porém, é certo, nós, os Lee Bats, somos os culpados em primeiro lugar...Fizemos uma opção em função de fatores externos à música, mas que incidem diretamente na nossa visão de mundo...

 

JL (interrompendo): Você se refere às ligações dos Lee Bats com a Maçonaria?

 

MS: Bem, você é que está dizendo que nos ligamos à Maçonaria...Mas não colocaria esta definição para a seita esotérica que integramos. Mas é fato que a necessidade que se interpôs de ocultar o já oculto, não sei se me entende, fez com que buscássemos uma estratégia anti-visibilidade, anti-marketing, contradição absoluta de nosso estado de músicos...Daí as máscaras, os pseudônimos e a fuga deliberada da mídia...

 

JL: Vocês se apresentaram no semestre passado aqui no C.A. de Letras no nosso programa de eventos chamado “Papo-vinho”, dias antes fora a apresentação de Tom Zé. Você vê uma ligação entre a música dos Lee Bats e a do tropicalista Tom Zé.

 

MS: Ambos – os Lee Bats e Tom Zé – temos um profundo apreço pela experimentação, pela busca dos limites da música popular. Nós caminhamos mais na direção do rock e das ligações da música com a poesia, ao passo que me parece que Tom Zé exercite mais o âmbito das raízes musicais brasileiras, mas temos em comum, isso, você sabe, da experimentação, da busca do novo...mesmo que seja revirando o velho....

 

JL: Quem já ouviu com atenção os Lee Bats, considera Alvin Bates um dos maiores guitarristas do rock brasileiro....

 

MS: Com certeza, Alvin é excepcional...Ele em três ou quatro audições de uma música de Jimi Hendrix ou de Led Zeppelin, pega os solos de forma quase perfeita...Tem um ouvido musical impressionante e desenvolveu uma técnica própria, um estilo próprio. As vezes você pode ouvir uma música nossa e achar que ele esteja usando este ou aquele pedal, que esteja com esta ou aquela marca de guitarra. Nossa banda é pobre, Alvin Bates tem somente duas guitarras baratas, uma da marca Rei, que você sabe, é pobre de recursos técnicos, bem popular e barata e uma Gianini, comprou-a usada, ele mesmo fez uns acertos nela, como se fosse um Lutier...tem dois pedais usados. Ele retira tudo o que faz na base de improvisação de recursos, jeitinho brasileiro...

 

JL: Uma coisa que geralmente se diz quando se ouve os Lee Bats pela primeira vez é acerca da voz de J.J.Gallahade, o cantor....Ele é definitivamente um desafinado, na expressão mesma da palavra...

 

MS: Sim...é uma coisa que....bem, nós optamos em função de alguns fatores externos que já mencionei...Em verdade, eu e o Bibi cantamos melhor...mas ficamos no backing vocal no máximo...O Gallahade é a voz dos Lee Bats, aliás só ele tem permissão para apresentar sua verdadeira identidade, você sabe...

 

JL (interrompendo): Sim, sabemos, inclusive ele é um dos diretores do centro acadêmico...Ele que trouxe os Lee Bats aqui para a PUC... Ele me disse que os Lee Bats estão acabando...que findou o ciclo...é verdade?

 

MS: Bem, tivemos um momento difícil em março desse ano, quando o Cid, o baterista morreu num acidente de carro...

 

JL: No Rio de Janeiro, na Ponte Rio Niterói, não foi?

 

MS: Sin, lá mesmo...Inclusive nos apresentamos aqui no C.A. com um  baterista que é de outra banda...Não é efetivamente um Lee Bat, nem o será, uma vez que é praticamente certo que daremos um bom tempo... O Alvin Bates foi, já tem três dias, para a Índia, acho que vai até o Nepal com o guru Raji Onguel...Ele tá numa fase muito espiritual e mística...Eu to de malas prontas pra seguir com minha família para a Macedônia...agora que conquistamos a independência...Meu pai tem coisas lá pra resolver...E eu também quero conhecer minhas raízes... Daí acho que a banda acabou, ou pelo menos vai demorar um certo tempo para retomarmos o projeto...

 

JL: Os discos dos Lee Bats são difíceis de encontrar, né?

 

MS: São discos independentes, pagamos nós mesmos a edição, impressão, as horas de estúdio...Tiragem pequena....Poucos são os lugares que pusemos para vender ou que aceitaram vender...Geralmente vendemos em nossas apresentações.

 

JL: Outro dia vi o disco “Rock’n’Roll” mo Museu do Disco...Aliás, ouvi também tocar Lee Bats numa emissora de rádio de Santo André...

 

MS (interrompendo): Deve ter sido no programa do Antônio Vasconcelos, na Rádio Rock....

 

JL: Sim, foi...

 

MS: Bem, segundo o guru Raji Onguel, nós seguiremos a sina de um Sousândrade, só faremos sucesso daqui trinta ou cinqüenta anos, quando alguém se dedicar a reescrever a história do Rock Brasileiro...

 

JL: Me parece então que o show aqui no C.A. de Letras foi a despedida da banda?

 

MS: Não estava programado que fosse assim, mas me parece que foi sim...

 

JL: Foi gravado?

 

MS: Gravamos o som, o Gallahade costuma gravar em fita K7 nossas apresentações...

 

JL: Tem, ao que sei, várias músicas gravadas em fitas que não estão nos discos...

 

MS: Sim, muitas...tem algumas que compomos, ensaiamos uma, duas ou  três vezes no máximo e depois nunca mais tocamos...Tem mais de cem músicas assim, várias são poemas da literatura brasileira e mundial que musicamos...Algumas versões de rocks...

 

JL: É o rock-poesia e o processo de transcriação?

 

MS: Sim, é isso mesmo...Um dia reconhecerão que somos os inventores do rock-poesia e que nossas traduções pertencem a um processo muito próprio de recriação.

 

JL: Bem, que você encontre o que procura na Macedônia e que retorne em breve para recompor os Lee Bats.

 

MS: Agradeço a oportunidade da entrevista. Abraços aos leitores, estudantes da PUC, essa universidade que sempre esteve na ponta das inovações e da busca do conhecimento no Brasil.

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Rob Ferrero
01/12/2010